Análise

O futuro do setor de mineração e metais

Levantamento “Tracking the Trends”, feito pela Deloitte, apontou as dez principais tendências do setor para os próximos meses

Por Patricia Muricy, sócia-líder de Energy, Resources & Industrials da Deloitte no Brasil

Os setores de mineração e siderurgia têm se aproximado cada vez mais do consumidor final. E ao mesmo tempo que essa proximidade traz mais exposição para as empresas, também mostra a relevância que essas áreas têm para a transição energética e um futuro de baixo carbono. Essa é uma preocupação importante devido ao impacto significativo que a indústria tem no meio ambiente e na mudança climática. A redução na emissão de gases é um esforço global e levou mineradoras de todo o mundo a assumirem compromissos desafiadores para suas operações. Muitas ainda com o foco no Escopo 1, que engloba as emissões que vêm diretamente do processo produtivo da empresa, e no Escopo 2, que se refere às emissões associadas à geração de eletricidade que a empresa consome. Todavia, se há um consenso no mercado, é de que, por melhor que sejam as intenções, ainda não há o domínio de tecnologias imprescindíveis para o atingimento dessas metas.

É preciso integrar fontes de energia renovável, como solar, eólica ou biomassa; implementar tecnologias de Captura e Armazenamento de Carbono (CAC) para capturar as emissões geradas durante a produção e armazená-las de forma segura; substituir equipamentos movidos a combustíveis fósseis por máquinas elétricas; pesquisar e desenvolver tecnologias mais limpas e eficientes para a extração e processamento de minerais, entre outras ações.

Iniciativas que levem à descarbonização serão implementadas cada vez mais. Não à toa, essa busca está entre as 10 principais tendências do setor, conforme mostra o relatório “Tracking the Trends”, elaborado pela Deloitte. 

Outro consenso do mercado é em relação às antigas práticas de investimento em pesquisa, que precisam mudar de patamar, ganhando agilidade e velocidade. Para que isso aconteça, é necessário que haja uma colaboração entre mineradoras, OEMs (sigla em inglês para Original Equipment Manufacturer, em português, Fabricante de Equipamentos Originais), siderúrgicas, startups e outros centros de inovação. A forma tradicional de Pesquisa & Desenvolvimento, que antes se restringia a áreas internas ou parcerias com academias e institutos de pesquisa, deixa de fazer sentido tendo em vista a enorme revolução e adoção de novas tecnologias que precisa acontecer em larga escala para que as metas de redução de emissão sejam atingidas. 

Isso tem gerado parcerias e ecossistemas que, por vezes, unem empresas concorrentes em busca de uma solução comum à toda a indústria. 

O compromisso global pela descarbonização das operações exige investimentos significativos, em um setor que já é de capital intensivo. Isso acaba por separar as mineradoras em função do porte e capacidade de investimento. Já na siderurgia, ainda vemos grande diferença entre as empresas que atendem o mercado europeu e as que atendem o mercado local, ou mesmo americano. A pressão na Europa pelo aço verde vem demandando de toda a cadeia um empenho maior em relação à descarbonização e demais práticas de ESG. Pressão essa que é bem menor em outros mercados. 

As empresas nacionais contam com um diferencial competitivo, mas que ainda não resultou no aumento de investimentos como deveria. Com uma matriz elétrica mais de 90% proveniente de fontes renováveis, com condições favoráveis para o aumento da capacidade eólica e solar, era de se esperar que o país conseguisse estar mais bem posicionado para aproveitar o momento e capturar investimentos verdes. Porém, é necessário que tenhamos um ambiente político, fiscal e jurídico mais estável e transparente.

Aliás, outra tendência apontada pelo “Tracking the Trends” é justamente a transparência. A adoção de metodologias e ferramentas para monitorar a segurança das barragens, mapear, treinar e instalar sistemas de alerta, aceleraram os complexos e custosos processos de descomissionamento ou descaracterização. Hoje, é possível acompanhar mapas que indicam a localização e a avaliação de cada instalação, bem como as possíveis áreas impactadas. A transparência aumentou, os processos de monitoramento e avaliação melhoraram significativamente, mas é preciso continuar apostando em práticas mais modernas e seguras de mineração.

Ressalto que parcerias e investimentos ajudam a trilhar caminhos para a neutralidade de carbono, que podem ajudar as organizações a atingir as metas de mitigação das mudanças climáticas. Como temos visto, diversas empresas têm apoiado iniciativas de pesquisa e desenvolvimento em tecnologias limpas, e construído uma mentalidade de transformação no ecossistema.

O “Tracking the Trends” apontou outras oito tendências no setor de mineração. Todas caminham juntas, se completam, e tendem a trazer novos rumos. São elas: valorização da natureza; circularidade consciente; colaboração, incubação e aceleração; fazer da mudança algo holístico; estratificar a segurança no ambiente de trabalho; e adesão da computação em nuvem. O levantamento traz análises pertinentes para cada um dos pontos levantados e, além de funcionar como um verdadeiro raio-X para quem está de fora, é uma ferramenta fundamental para que as empresas vejam o quanto elas podem avançar, e ainda, percebam que não estão sozinhas nessa busca. 

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