Artigo

O futuro da saúde comportamental

A inovação como arma de combate ao aumento dos problemas de saúde mental 

O impacto da Covid-19 na saúde vai muito além do aumento do número de óbitos. Esta pandemia aumentou significativamente a pressão sobre os problemas de saúde mental e comportamental, e agravou ainda mais a crise que se abate sobre este setor há já muitos anos. Poderá a inovação ser o trunfo para endereçar esta crise?

Desde 2017, pelo menos 300 milhões de pessoas lutam contra a depressão, 284 milhões contra a ansiedade e mais de 178 milhões contra o álcool ou a toxicodependência. As estimativas sugerem que pelo menos 1 em cada 4 pessoas sofra de doenças comportamentais significativas em algum momento da vida. As consequências podem ser devastadoras e conduzem habitualmente a overdoses, suicídios ou morte prematura - como é tragicamente o caso de 1,15 milhões de pessoas anualmente em todo o mundo.

O preço a pagar se resume às vidas humanas. Estes problemas arrastam consigo uma carga socioeconómica pesada. De acordo com um estudo, as grandes depressões representam um custo anual de 210,5 mil milhões de dólares para a economia global, e os custos diretos e indiretos das doenças comportamentais totalizam até 4% do Produto Interno Bruto (PIB) global, valor que excede o peso do cancro, da diabetes e das doenças respiratórias combinados. Um outro estudo estima um impacto negativo de 16 triliões de dólares na economia global de 2020-2030, se o mundo não responder adequadamente aos problemas de saúde comportamentais.

Todos estes estudos foram feitos antes desta pandemia. Os números atuais são bastante piores. Um relatório recente indica que a percentagem de pessoas que relataram um impacto negativo da Covid na sua saúde comportamental aumentou de 32% para 53% entre março e julho de 2020, só nos Estados Unidos.

Barreiras ao tratamento de doenças mentais

Os atuais desafios globais apenas tornaram clara a necessidade de uma maior inovação na área da saúde comportamental, com benefícios para várias áreas – melhores cuidados de saúde, redução dos custos dos cuidados de saúde, mão-de-obra mais saudável, mais feliz e mais produtiva.

Organizações de saúde, empresas e governos têm de abordar urgentemente estas questões. Mas há ainda uma série de barreiras no caminho:

  • As lacunas no conhecimento científico e clínico que limitam a capacidade de diagnosticar e tratar com precisão os problemas de saúde mental;
  • O estigma associado à saúde comportamental que torna os doentes menos dispostos a partilhar a sua informação e a procurar tratamento;
  • Sistemas de cuidados caros e reduzidos que dificultam o acesso a este tipo de cuidados de saúde;
  • A gestão fragmentada dos cuidados de saúde estende-se aos dados das pessoas com problemas de saúde mentais, o que impede uma análise global e dificulta a tomada de decisões clínicas.

Disrupção e mudança

A disrupção causada pelas mudanças culturais, avanços científicos e tecnológicos, pelo maior acesso aos cuidados de saúde, partilha e interoperabilidade dos dados e pelo crescente poder de decisão do consumidor está a criar oportunidades em todos os sectores e a desenhar um novo futuro na saúde comportamental. Existem seis tendências que podem impulsionar uma mudança significativa na saúde comportamental.

  1. A mudança cultural e comportamental diminuirá o estigma associado à saúde comportamental;
  2. Os avanços na nossa compreensão da genética, neurociência, endocrinologia e outros campos relevantes conduzirão a um conhecimento mais profundo da saúde comportamental e de tratamentos eficazes;
  3. A disseminação de cuidados virtuais e o uso de IA vão otimizar o acesso aos cuidados e garantir soluções mais personalizadas;
  4. A partilha de dados permitirá a identificação proactiva de questões de saúde comportamental;
  5. A interoperabilidade dos dados vai permitir esta partilha e promover a identificação de tratamentos mais personalizados, graças a uma visão mais completa da ficha clínica de cada doente;
  6. Mais e melhores tratamentos vão proporcionar uma experiência global de maior qualidade em termos de saúde mental.

Oportunidades para os profissionais de saúde

As seguradoras, os prestadores de cuidados de saúde, os empregadores e os decisores políticos encontram nestas tendências disruptivas várias oportunidades. Mas no global, todas elas vão garantir serviços mais inovadores, de maior qualidade e mais personalizados. A tecnologia é um dos maiores catalisadores desta transformação.

A recolha, partilha e análise de dados permite que todos os profissionais de saúde envolvidos consigam garantir ao doente diagnósticos mais rápidos e eficientes e tratamentos mais personalizados. Ferramentas como os assistentes virtuais, as tecnologias de diagnósticos, de realidade aumentada e virtual, e as plataformas digitais dão aos pacientes um maior suporte e acesso a soluções de autoajuda que podem revelar-se cruciais em doenças do foro psicológico.

Aos médicos, estas opções, e outras tecnologias mais avançadas como sistemas digitais de fenotipagem e de intervenção neurológica não invasivas, oferecem soluções extra que agilizam os processos, otimizam os tratamentos e aceleram os cuidados de saúde prestados.

Do lado da gestão, estas transformações podem promover o desenvolvimento de soluções e modelos de negócio capazes de criar valor comercial, melhorar os níveis de saúde e bem-estar, e construir sociedades mais fortes e mais resistentes em todo o mundo.

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