IRGA 28ª Edição

Insights

Editorial

Manuel Alves Monteiro, Presidente do Júri do IRG Awards 2016

29ª Edição

É inquestionável que o modelo de desenvolvimento do país não tem respondido aos desafios dos tempos modernos. A integração de Portugal na Comunidade Económica Europeia fez acreditar que, fruto da integração num espaço económico tão populoso e rico e do cumprimento de políticas de coesão social e económica, o país iria seguir um caminho consistente de aproximação aos níveis de bem-estar das economias europeias mais desenvolvidas.

A integração, desde a primeira hora, no espaço de moeda única europeia, fez alimentar ainda com mais convicção essa justa esperança.

Porém, o país não fez acompanhar estes passos importantes de políticas de fundo que criassem a infraestrutura de base que nos permitisse crescer e tirar partido pleno da integração no espaço económico que, fruto de um processo de crescente alargamento, se tornou no mais rico do planeta: a União Europeia.

A par disso, os agentes económicos mantiveram-se fiéis a uma cultura e uma forma de empreender e investir que se revelou perniciosa, pela dificuldade em afirmar quadros de desenvolvimento competente, transparente, responsável e concorrencial, resquícios de uma economia de modelo corporativista e fortemente condicionadora da livre iniciativa privada, da sã concorrência e de uma exigente regulação e supervisão.

A sorte do setor bancário da última década arrastou largas franjas do tecido empresarial, deixando a nu as debilidades da estrutura de capital das empresas.

O mercado de capitais foi sempre, entre nós, uma alternativa de financiamento com pouca expressão. O Estado Novo encarou-o com desconfiança, receoso de que um financiamento desintermediado das empresas pudesse retirar efeito ao modelo de condicionamento industrial vigente. Cabia à omnisciência do Estado a definição dos setores e dos empresários que, a cada momento, deveriam despontar e crescer e não às forças do mercado, ao jogo da concorrência, às preferências dos investidores, ao escrutínio de analistas ou à supervisão de reguladores.

O mercado de capitais e o seu segmento mais simbólico, a bolsa de valores, eram vistos como redutos de economias cujo modelo político (democracia representativa e estado social de Direito) gerava entre nós fortes reservas.

Em 1974, a mudança do regime não trouxe grandes alterações neste quadro. Pese embora se tenha desenvolvido um segmento bolsista que, no decurso da década de noventa, foi ganhando maior expressão, o certo é que Portugal é um dos países da Europa Continental onde o mercado de capitais tem menor peso no financiamento da economia. Acontece que nem o estado anémico da banca faz ressurgir o mercado de capitais, fazendo crer que uma cultura de mercado é requisito essencial.

Ora, existirá uma cultura de mercado? A resposta é claramente positiva. Nada como as más práticas que vão sendo conhecidas de onde em onde para se perceber que existe um quadro de referências que molda as empresas bem-sucedidas e preferidas dos investidores.

O governo das empresas terá de ser vivido de outra forma, seja pelos acionistas de referência, seja pelos gestores, supervisores, auditores, reguladores, analistas e demais atores que interagem no mercado.

Os IRGA – Investor Relations & Governance Awards, que a Deloitte mantém com pleno vigor há já 29 edições, são um instrumento de divulgação dessa cultura que o mercado exige, assente no escrutínio, no rigor, na transparência.

Em tempos exigentes e de fortes mudanças, a existência de um quadro de referências é essencial para que todos percebamos para onde devemos ir. O exemplo dos melhores pode ser inspirador, nomeadamente para as gerações futuras.

Imagens cedidas pelo ESO.

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